Terça-feira, Julho 22, 2008

Mudei de cômodo, na mesma casa

"Quando o objeto representado na poesia ou na pintura é tal que não poderíamos ter o desejo de ver na realidade, então posso estar certo que seu poder na poesia ou na pintura deve-se ao poder da imitação e não a alguma causa operante na própria coisa." (Burke, Edmund: 1751, 49).



E vira-se mais esta página.

Segunda-feira, Julho 21, 2008

Duna

Com a pinça de seus calos retirou,
uma a uma,
as agulhas que plantaram
no Saara daquela retina

E a resignação de quem amou,
dia a dia,
não é mais o que arranha,
mas areia doce dos figos

da menina.

Quarta-feira, Julho 16, 2008

Refém

Cá o tom é blue: Kent ou Marlboro;
Carlton é de lá, red, ready to go to
somewhere over the filter.

Mas future may be a lie, or alive
ou a laica morada de vão livre
e de vista verde de Verdy e café…

que interrompeu de áurea música
o incorruptível; sob a fumaça daqueles
olhos eneblinados de tantas manhãs.

Cá, o tom é isso.
Lá, o tom é risco:
se não paisagem,
azul precipício

Quarta-feira, Julho 02, 2008

sweetheart,

não é fácil caramelizar um coração
eriçado pelos fantasmas de abril
não é fácil, bayb, nem violar o segredo
ou a perversão que mancha os dedos
de qualquer alma

- aprendi que os piores ruídos, baby,
acontecem em silêncio -

tudo acontece em silêncio

nesse seu coração manco, e tão caramelizado,
que se derrete, exposto e velado,
with all some Love
and saudade

Segunda-feira, Novembro 19, 2007

soneto descompassado

disse dos cabelos negros a cegueira do som improvável
- difícil carregar o vento nas hélices dos lábios...
não julgue minha sede que matou onde nasceu a fome,
não maldiga o peito em sortimento, ainda que o ignore -

digo, esses negros cabelos ainda encravam sob as unhas
e espetam cada nervo desta minha voz aguda:
- em vibrato - cada órgão, como se ressuscitado,
orquestra para serenar aquele músculo descompassado.

a hesitante do tempo esfacela um doce vindouro,
pois tudo o que destila de teus olhos, arde,
nos cabelos e na língua que tripudia uma verdade.

mea-culpa te engendrar no claustro desta fábula,
mas terno é o que o acaso brinda - e desata –
nas veias que, agora, gangrenam sob a mesma mácula.

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Segunda-feira, Outubro 29, 2007

ballet pop contemporâneo

sobre o campo, verdes falanges,
um ballet pop salta à tela dos vivos
corpos, no silêncio dos ouvidos que
ressoam dissonantes

a bola, um jogo, e o sofá
acolhe as almas que se assistem
num ballet pop contemporâneo

do afeto, feito inédito, um
modular de gestos plácidos,
na visão de corpos quietos

um vazio desmodulado,
carregado de ternura em brasa:
o silêncio do estar, simplesmente,
sob o encanto da hora que ali passa.

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Segunda-feira, Outubro 08, 2007

a parrisse

encontrei por acaso
a mala que esqueceu
quando foi a paris

nela
meus olhos miúdos sangraram
na festa de um beaujolais

nouveau

as roupas gemiam como o acordeão
cansado
que embebedava o quartier

latin

e o perfume
cheirava às putas do pigalle
tão suaves como só

a parrisse

peguei pra mim
sua bagagem e meu tropeço
que perdeu viço:

você voltou

mas o vício que fica
entedia
no recomeço

da minha festa de amor